plásticos no meio marinho
Soluções inovadoras para reduzir os plásticos no meio marinho
produção agrícola em Portugal
Produção agrícola em Portugal em 2025
plásticos no meio marinho
Soluções inovadoras para reduzir os plásticos no meio marinho
produção agrícola em Portugal
Produção agrícola em Portugal em 2025

30 de dezembro de 2025

Bioeconomia circular na agricultura: como os resíduos orgânicos podem regenerar os solos em Portugal

Foto em Unsplash

A bioeconomia circular na agricultura pode transformar resíduos orgânicos em valor, regenerar solos portugueses e reduzir a dependência de fertilizantes. Artigo publicado na revista Voz do Campo, com contributos de Telmo Machado, gestor da Unidade de Produtos Sustentáveis da LIPOR.

Todos os anos, Portugal desperdiça milhões de toneladas de resíduos e subprodutos biodegradáveis. Apesar da dimensão do problema, não existe um valor exato ou sequer uma estimativa sobre a quantidade de matéria orgânica desaproveitada ao longo da cadeia de valor, o que evidencia a fragilidade dos dados disponíveis.

Esta ausência de informação contrasta com a necessidade urgente de regenerar os solos nacionais. Enquanto se perde matéria orgânica essencial ao desenvolvimento da bioeconomia circular na agricultura, os solos portugueses continuam a degradar-se, quando poderiam beneficiar significativamente da reintrodução destes biorresíduos.

Segundo Telmo Machado, este é um problema global, agravado pelas alterações climáticas, que coloca Portugal — tal como outros países do sul da Europa — numa posição particularmente vulnerável. Ainda assim, esta realidade pode ser transformada numa vantagem estratégica se a utilização dos recursos for feita de forma inteligente e inspirada na própria natureza, onde nada se perde e tudo circula.

Da economia linear à bioeconomia circular

A degradação dos solos resulta de décadas de um modelo linear baseado em extrair, usar e descartar, sem reposição de matéria orgânica e sem uma visão de longo prazo. Num contexto de fertilidade decrescente e de forte dependência de fertilizantes importados, os biorresíduos assumem um papel central para tornar a agricultura mais resiliente e autónoma.

Assim, a bioeconomia circular na agricultura é um sistema em que resíduos e subprodutos de base biológica regressam continuamente à cadeia de valor, substituindo materiais fósseis e sustentando a produção de alimentos, energia e bioprodutos com menor impacto climático.

Valorizar resíduos para regenerar solos

Telmo Machado defende que é urgente deixar de enviar “ouro” biológico para aterro ou de tratar esta matéria-prima de elevado valor de forma pouco qualificada. Existem já exemplos de valorização de biorresíduos que demonstram como aquilo que era um problema pode tornar-se uma solução para regenerar solos, reduzir custos de produção e aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas.

A LIPOR é um caso de referência, transformando há mais de quatro décadas os resíduos orgânicos urbanos do Grande Porto em corretivos orgânicos de elevada qualidade, com potencial para evoluir para produtos como substratos e bioestimulantes.

Infraestruturas como pilar da bioeconomia circular

Apesar da existência de tecnologia e matéria-prima, a transição para a bioeconomia circular na agricultura exige infraestruturas adequadas. Telmo Machado sublinha a importância de criar polos regionais de transformação de resíduos orgânicos, capazes de servir os setores agrícola, pecuário e agroindustrial.

Contudo, mais do que a origem dos resíduos, o critério essencial deve ser a sua qualidade e caracterização técnica. A concentração controlada da matéria orgânica permitiria aumentar a eficiência da transformação, padronizar processos e devolver valor de forma consistente aos solos agrícolas.

Compostagem e digestão anaeróbia

A compostagem é uma das soluções mais eficazes para valorizar matéria orgânica, desde que bem monitorizada. Permite melhorar a estrutura do solo, aumentar a retenção de água, introduzir microrganismos benéficos e reduzir a dependência de fertilizantes de síntese.

A digestão anaeróbia é igualmente relevante, produzindo biogás e biometano, assim como um digestato rico em nutrientes com aplicação agrícola. Para Portugal, representa uma oportunidade de reduzir emissões, criar energia descentralizada e disponibilizar biofertilizantes.

Exigência e qualidade na circularidade

A circularidade só é benéfica se for exigente e criteriosa, uma vez que a integração de resíduos sem um controlo rigoroso pode introduzir contaminantes nos solos, comprometendo a confiança dos agricultores. Neste contexto, o Plano TERRA pode assumir uma importância estratégica, desde que privilegie não apenas a quantidade de resíduos tratados, mas também a qualidade, rastreabilidade e segurança dos resíduos valorizados.

Integrar resíduos orgânicos na agricultura de forma técnica e territorialmente coordenada contribuirá para aumentar a fertilidade dos solos, apoiar os objetivos climáticos nacionais e impulsionar novas fileiras económicas ligadas à bioeconomia.

Neste contexto, Portugal dispõe de conhecimento técnico, recursos humanos e de uma necessidade económica para abraçar esta transição. Mais do que reduzir resíduos em aterro, o desafio passa por reconstruir o capital natural que sustenta a agricultura nacional, valorizando milhões de toneladas de resíduos orgânicos e regenerando os solos.

 

Fonte: Revista Voz do Campo